quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Eu etiqueta...

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)

E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou - vê lá - anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.


Carlos Drummond de Andrade

Meus comentários:

Eu, Etiqueta?!

Sinto-me a vontade para falar sobre o assunto, na verdade compartilho com o autor da mesma agonia. É claro que gosto de me vestir bem, mais papai e mamãe investiram ( e investem até hoje) todos os seus esforços para forjar minha personalidade e ai... Uma estampa de camiseta, uma etiqueta de calça, uma marca de tênis fala mais de mim do que os longos anos de educação que recebi... O curioso é que como se não bastasse sermos avaliados assim, também o fazemos. Está no inconsciente coletivo ou no consciente mesmo? Paira a minha pergunta...
Como disse Meryl Streep em “ O diabo veste Prada” – “ A roupa que usamos hoje, foi escolhida por algum estilista ontem” Nem nossa roupa escolhemos mais.
Mesmo assim nada disso da poder as marcas para penetrar em nossa identidade, cabe a nós fecharmos as portas de nossa bagagem cultural, familiar e etc.
Mais sou a favor do fato de que; já que temos que fazer propaganda gratuita, façamos ao menos pelo que vale apena!
Como diria Noel Rosa: “Com que roupaaa eu vouuu, pro samba que você me convidou...?” Pro samba da vida.

Leonardo Barros

Um comentário:

Luciana Rodrigues disse...

Compartilho com vc e com o Drummond da mesmíssima agonia...

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SÃO ROQUE, São Paulo, Brazil
Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta terra podem satisfazer, a única explicação lógica é que eu fui feito para um outro mundo.
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